FOLHAS DE RELVA

Esta seção contém os livros e poemas de Folhas de Relva que trabalhei em minha tese de

Marietta Alboni

Marietta Alboni

doutoramento (SARAIVA, 2008). Após muito polimento, eles estão agora sendo apresentados para apreciação pública (eles estão listados em categorias pelos títulos). Como todos sabemos, o trabalho de um tradutor nunca está terminado, pois toda vez que se revisam os textos se encontram erros que eram invisíveis antes. No entanto, pelo menos posso apresentar o texto agora em sua versão final atual (2008). Naturalmente, os textos dos poemas/livros serão re-trabalhados toda vez que houver oportunidade para tal, como fiz com os livros que traduzi para o meu mestrado (“Canção de Mim Mesmo,” “Descendentes de Adão,” e “Cálamo”; SARAIVA, 1995), e feitas correções para futuras edições.

Dentro desta idéia, serão colocadas notas de rodapé e comentários quando forem convenientes ou necessários para uma melhor compreensão de seu conteúdo. A propósito, o poema “Do Berço Infindamente Embalando” (“Out of the Cradle Endlessly Rocking”) tinha aparecido como um anexo em minha dissertação de mestrado (SARAIVA, 1995, p.162), já que ele tinha sido referido naquele trabalho como uma expressão do amor de Whitman pela ópera.

O próprio poeta disse que ele devia muito à ópera e até afirmou que não teria escrito Folhas de Relva se não tivesse sido “saturado” por esta experiência musical. Conseqüentemente, há traços desta experiência em seus poemas, especialmente em “Do Berço Infindamente Embalando”, que formalmente é uma ária. Whitman admirava especialmente Marietta Alboni (1826-1894), “a maior soprano [e contralto] coloratura da história da ópera”, cujas performances em Nova Iorque foram todas assistidas por ele; Geremia Bettini, o tenor; e Giuseppe Verdi (1813-1901), o compositor. Naturalmente, como um amante da ópera, Whitman adora Gioachino Rossini também (1792-1868), que tinha sido o mestre de Verdi. Em seus anos nova-iorquinos, o poeta foi levado às lágrimas por estes artistas maravilhosos, um fato que ele recordava com alegria em sua velhice (ALLEN, 1955, pp.113-5).

Na realidade, esses artistas são mencionados por Whitman em um outro poema, “Proud Music of the Storm” (“Orgulhosa Música da Tempestade”), que lembra uma “abertura operática” (um prelúdio), na qual Alboni é descrita como “O orbe lustroso, Vênus contralto, a mãe florescente, / Irmã dos deuses mais altos” (WHITMAN, 2002, pp.339-45). O poema “Do Berço Infindamente Embalando” foi também recriado. Na verdade, todo o conjunto de DETRITO-MARINHO foi recriado e está incluído nesta edição.

Se há um aspecto do romantismo que foi compartilhado por Whitman sem a menor sombra de dúvida, certamente foi o amor pela música. Apontamos em nossa tese a relação ou reação de Whitman contra algumas das características românticas, tais como morbidez e a falta de envolvimento com problemas sociais, no entanto, no campo da música, a situação é exatamente a oposta.

Não que Whitman concordasse com os românticos que a música fosse “a mais romântica de todas as artes” (SCHENK, 1979, p.201), mas porque ele acreditava no “poder da música para agitar” sentimentos e emoções, isto é, a música tinha para ele um “apelo incomparável às emoções”, muito embora os românticos “em geral preferissem viver como se fosse no passado ou no futuro” e a “música constituía a esfera na qual o presente poderia ser melhor experienciado num tipo de sonho encantado” (1979, pp.231-2). A seguinte passagem da seção 26 de “Canção de Mim Mesmo” ilustrará este tópico:

Ouço o violoncelo, (é a queixa do coração do jo­vem,)

Ouço a corneta afinada, ela desliza veloz pelos meus ouvidos,

Ela provoca doce-doidas pontadas no meu abdome e peito.

Ouço o coro, é uma ópera dramática,

Ah isto de fato é música – isto condiz comigo.

Um tenor grandioso e recente como a criação me preenche,

A esférica flexão de sua boca extravasa e me preenche plenamente.

Ouço a soprano preparada (que é este trabalho junto ao dela?)

A orquestra me lança mais longe que o vôo de Urano,

Ela arranca uns ardores de mim que eu não sabia que possuía,

Ela me singra, agito os pés descalços, eles são lambidos pelas ondas indolentes,

Sou cortado por amargo e raivoso granizo, per­co o fôlego,

Imersa em melosa morfina, minha traquéia sufocou nas voltas[1] da morte,

Por fim afrouxou de novo para sentir o enigma dos enigmas,

E a isso chamamos Ser.

(SARAIVA, 1995, pp.30-1)

Este trecho mostra enfaticamente os “ardores” que o poeta não sabia que possuía. Isto está de acordo com o poder da música ressaltado pelos românticos, o que torna a música uma arte divina, que nos mostra a nós mesmos o que era previamente desconhecido em nós mesmos.

Parafraseando as palavras de Whitman sobre a edição de 1891-92 de Folhas de Relva, deixarei que o mundo julgue o que é apresentado neste volume; quanto a mim, como tradutor, estou contente com o trabalho feito. E muito feliz de ter tido a oportunidade de fazê-lo. A propósito, o texto que é utilizado aqui como fonte para esta tradução é a Edição de 1891-92, conhecida como a Edição autorizada ou de Leito de Morte, publicada pela Norton Critical Editions, e é uma edição anotada (WHITMAN, 2002).


[1] Voltas da corda em volta do pescoço.

***

Related Posts with Thumbnails

Leave a Reply