Folhas de Relva: A Obra

Folhas de Relva possui uma história editorial incomum. Houve nove edições durante a vida defolhas de relva Whitman, e Folhas de Relva é o título geral sob o qual Whitman publicou sua poesia completa. A primeira edição foi publicada pelo poeta em 1855, com apenas o título e um retrato dele na capa, sem o nome do autor.

Essa edição continha um Prefácio, hoje um documento histórico da literatura norte-americana, que enunciava as idéias que fundamentaram a poesia e a atitude do poeta, e doze poemas separados e sem título (alguns deles receberam Folhas de Relva como título). Esses poemas foram numerados e receberam títulos da segunda edição (1856) em diante. O primeiro e mais longo deles foi “Canção de Mim Mesmo”, uma “elegia” ao “Eu”. Entre outros, podemos citar “Uma Canção para Profissões”, “Pensar no Tempo” e “Grandes são os Mitos”.

Na primeira edição, o nome do poeta apareceu apenas na parte que ficou conhecida mais tarde como a seção 24 de “Canção de Mim Mesmo”, no verso: “Walt Whitman, um kosmos, de Manhattan o filho”. John Burroughs nos dá, em uma passagem de seu livro Notas sobre Walt Whitman, como Poeta e Pessoa (1867), uma descrição precisa do formato e efeito dessa primeira edição:

No verão de 1855 um delgado volume in-quarto de uma centena de páginas, pobremente impresso, e inscrito em grandes letras na página de rosto, FOLHAS DE RELVA, apareceu da prensa de um pequeno escritório de trabalho na cidade de Broolyn, Nova Iorque.

Não tinha nome de autor, mas havia um frontispício, uma apurada e artística gravura de aço, retratando um homem em algum lugar entre os trinta e trinta e cinco anos de idade, bastante neglige[1](sic), sem casaco ou colete, camisa aberta no pescoço, uma mão no bolso das calças e a outra repousando em seu quadril; rosto barbeado e um chapéu de feltro levemente empurrado pra trás da testa; um par de olhos brandos mas firmes o bastante, e uma expressão geral, não apenas no semblante, mas por igual na figura toda, que mantinha a gente olhando longamente a imagem, sob um sentimento que a gente mal poderia descrever.[2]

Folhas de Relva cresceu de acordo com a produção poética de Whitman durante sua vida. Mas esse crescimento não foi tão simples quanto parece. Na verdade houve muitas mudanças, rearranjos, acréscimos e subtrações ao livro. A introdução de Leaves of Grass and other writings[3], uma “Norton Critical Edition” (Edição Crítica da Ed. Norton), traz um relato detalhado dessa história, da qual fornecemos aqui um breve resumo. Em 1856, Whitman adicionou vinte poemas à segunda edição. Entre eles estavam “By Blue Ontario’s Shore”, “Song of Prudence”, “Salut au Monde!”, “Song of the Open Road”, “Song of the Broad-Axe” and “Crossing Brooklyn Ferry” (“Na Praia do Ontário Azul”, “Canção da Prudência”, “Saudação ao Mundo!”, “Canção da Estrada Aberta”, “Canção da Acha-d’Armas” e “Travessia da Barca do Brooklyn”). Essa edição também tinha um grande Prefácio, que de fato era a carta do poeta a Emerson, seu “Querido Amigo e Mestre”, em resposta à carta que Emerson tinha escrito quando recebeu uma cópia da primeira edição, reconhecendo “o maravilhoso presente” das Folhas e o “pensamento livre e corajoso” do poeta[4].

Depois disso, Whitman teve um período incrivelmente produtivo, que durou até 1860, quando ele publicou a terceira edição, com a inclusão de 124 poemas ao livro já existente. Além das revisões e mudanças, começou também a agrupar poemas que tinham relação entre si em conjuntos ou coletâneas (“clusters”), de acordo com os temas. Para essa nova edição, havia três conjuntos: “Cálamo”, centrado na celebração da camaradagem entre homens; “Descendentes de Adão” (ou “Filhos de Adão”), baseado na procriação, e Repiques de Tambor, sobre a nação em guerra (Repiques de Tambor foi iniciado em 1860). Na realidade, Repiques de Tambor foi publicado em 1865 e sua “Sequel” (“Continuação”) em 1866, ambos como suplementos a Folhas de Relva, mas para serem mais tarde aglutinados à edição matriz ou editados separadamente se necessário. A “Sequel” foi a edição especial que continha a elegia de Whitman a Lincoln, o poema “Da Última Vez Que Lilases Floriram no Pátio”, a fina peça poética sobre a morte do Presidente Lincoln. Esses conjuntos eram tão fortes que eles permaneceram em sua maioria sem mudanças até a edição final, enquanto outros conjuntos foram redistribuídos ou simplesmente eliminados como tais, com alguns de seus poemas sendo inseridos em outras seções do livro. “Chants Democratic” e “Messenger Leaves” são exemplos disso.

Em 1866 Whitman queria publicar uma edição nova e melhor das Folhas, concretizada em 1867. Era a quarta edição que, com seus suplementos, abrangia desta vez 236 poemas. Um dos suplementos dessa edição era “Songs Before Parting” (“Canções Antes de Partir”). Depois disso houve a quinta edição, de 1871, com nove novos poemas. Mais tarde, em 1876, houve uma outra edição, a sexta, com muito poucas mudanças. Mas com um volume adicional chamado Two Rivulets (Dois Riachos), composto de prosa e poemas, tais como as “Centennial Songs” (“Canções Centenárias”), em homenagem ao centenário da Declaração de Independência Americana em 1776, e “Passage to Índia” (“Passagem para a Índia”). Subseqüentemente, em 1881, com uma profunda modificação e uma redistribuição final, a sétima edição foi trazida a lume. Esta foi a primeira publicação apropriada das Folhas, pois foi a primeira feita por uma editora (foi chamada de edição Osgood, publicada por James R. Osgood e co.). Whitman em pessoa tinha sido responsável por todas as edições anteriores. De 1881 em diante não haveria mais mudanças, apenas  acréscimos, como “Sands at Seventy” (“Areia aos Setenta”) à oitava edição, em 1888. E “Good-bye My Fancy” (“Adeus Minha Fantasia”) à nona edição, de 1891-92, que é a edição “autorizada” ou de “leito de morte”, feita por David McKay, Filadélfia, que também publicou as Complete Prose Works (Obras Completas em Prosa) do poeta, que englobam “Specimen Days”, “Collect”, “Notes Left Over”, “November Boughs” (“Dias Exemplares”, “Compilação”, “Notas Restantes”, “Ramos de Novembro”), etc., uma coletânea de apontamentos que vai da mais tenra infância do poeta em Long Island até sua velhice em Camden, NJ. Todo esse trabalho de criação e edição das próprias obras por Whitman é mais bem descrito por Bradley e Blodgett nesta passagem de sua introdução ao volume Leaves of Grass and other writings, citado acima, p.xxxi:

A construção de Folhas de Relva seria melhor avaliada, não como um sistema hierárquico de temas, mas como uma edição engenhosa por um homem que foi obrigado a ser seu próprio editor na maior parte de sua vida, que serenamente confrontou um mercado literário hostil, que desfrutou de pouco benefício de conselho profissional, e que de qualquer maneira essencialmente realizou o que ele tinha a intenção de fazer. Foi preciso resolução—a resolução do poeta que disse a si mesmo, ‘Agora viajante navega para buscar e encontrar.’

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Os poemas de Whitman estão sendo publicados na seção Folhas de Relva.

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[1] Do francês, “sem-cerimônia”.

[2] John Burroughs (1837-1921) conheceu Whitman em Washington em 1864; Whitman o ajudou a se tornar escritor e em troca Burroughs ajudou a melhorar a habilidade do poeta na observação precisa da natureza. Notas sobre Walt Whitman está disponível em The Walt Whitman Archive,

<http://www.whitmanarchive.org/criticism/disciples/burroughs/works.html>, uma ampla fonte de registros escritos sobre e de Whitman.

[3] Walt Whitman, (Folhas de Relva e outros escritos), New York, W.W. Norton & Company, 2002.

[4] Ibid., pp.637-8.

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